Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao Guilherme, titular desta coluna, a oportunidade de bater um papo com vocês sobre nosso tema recorrente: o design em nossas vidas, ou vice-versa.
Bem, após esta pequena cerimônia de abertura, posso começar falando sobre como cheguei até aqui. Não irei declamar poeticamente sobre como me ingressei nesta coluna mas sim, em termo literal. Cheguei até aqui de ônibus. Isto mesmo meus amigos, assim como muitos, também sou usuário (diário) deste excelente modo de transporte.
Posso imaginar a sua cara de espanto neste exato instante ao ler um indivíduo vangloriando o ato de andar de ônibus. Mas senhores, é a pura verdade. E vou dizer porque.
O profissional do design se alimenta de toda e qualquer referência visual para desenvolver o seu ofício. Trabalhamos com criação e para tanto, somos ávidos seres sedentos por novidades, tudo para ampliar nosso repertório. E o ônibus se encaixa perfeitamente nesse contexto.
Embora o trajeto para o trabalho seja sempre o mesmo, vivenciamos coisas diferentes a cada dia da semana. É impressionante. São pessoas trajando estilos diferentes, se comunicando de formas diferentes, com sotaques diferentes, ousando nos cabelos e até mesmo comemorando aniversário no fundo do ônibus. Todos coexistindo num mesmo espaço. E onde está o design nisso? Em tudo, em todos. Basta observar.
As referências (e as grandes idéias) as quais me refiro podem surgir ao ouvirmos a conversa de dois operários da construção civil reclamando do atraso nos salários; ao repararmos como três adolescentes do subúrbio comentam sobre a noitada na internet; o trocador conversando ao telefone com a esposa; duas garotas falando sobre os preços da nova coleção de uma grande marca de roupas; vendedores ambulantes entrando e saindo; este que vos escreve participando de um verdadeiro debate sobre as eleições; além de muitos outros personagens que desfilam diariamente por esta curiosa e muitas vezes apertada passarela. Sem citar tudo aquilo que pode ser visto através das janelas. As cenas do cotidiano.
Design é dialogar, é vivenciar. É ter e buscar conteúdo. Ao nos relacionarmos com variados tipos de pessoas, valorizamos nosso potencial de argumentação. Trabalhamos com o ato de comunicar uma mensagem, e para que isto ocorra dentro de um contexto, é preciso ver e entender aquilo que está ao nosso redor.
O trabalho de criação ou de desenvolvimento de um projeto em design se inicia muito antes de sentarmos diante do computador. Muitas vezes começa bem longe dalí, num ponto de ônibus.
Observe seu dia.